História

Figureiros de Taubaté


Taubaté destaca-se pela preservação e apoio à cerâmica figurativa. Das heranças ancestrais, uma das mais significativas manifestações artísticas taubateanas são os “figureiros”.

De suas mãos hábeis, vão surgindo figurinhas que retratam aspectos do povo, animais, crendices e tradicionais festas populares.
A habilidade na modelagem da argila parece ser no Vale do Paraíba mais uma herança portuguesa do que indígena ou do negro.

Entremoz e Barcelos são exemplos das cidades portuguesas, onde a confecção das figurinhas de barro e peças de olaria são uma tradição popular. Taubaté inclui-se entre as poucas cidades brasileiras que ainda preservam essa tradição.

O pavão, figura bastante tradicional na arte figurativa local, ficou sendo o símbolo do Folclore de Taubaté.

Em 1997, a Prefeitura Municipal preocupada com a difusão e preservação dessa arte popular criou a “Casa do Figureiro”, local onde os figureiros trabalham e comercializam suas obras.

A implementação do turismo eram também uma das prioridades Sendo assim, a Prefeitura iniciou um projeto pioneiro de revitalização da Rua da Imaculada.

Essa rua, conhecida como o reduto das figureiras, recebeu um tratamento especial, as casas dos figureiros foram restauradas e pintadas dentro da estética figurativa dos artesãos.

A entrada da rua recebeu um portal que foi idealizado pelo talentoso artista plástico, já falecido, José Demétrio. Mais tarde o projeto de revitalização da Rua Imaculada realizado pela arquiteta Cristina Aparecida da Silva, sendo executado pela Prefeitura de Taubaté.


RUA IMACULADA


Situado à esquerda da via Dutra, no sentido de quem vai do Rio de Janeiro para São Paulo, encontra-se o Morro de São João, Município de Taubaté, Estado de São Paulo, onde se situam a Igreja e a Rua Imaculada.

Essa rua é um raro exemplo de “comunidade cultural”, é um caso à parte; tanto assim que serviu de inspiração ao compositor Renato Teixeira através de uma gravação em compacto simples da CA de 1979.


INFLUÊNCIAS


Como componentes da raça e da cultura brasileiras estão os índios, os brancos e os negros. Sabe-se que os índios, desde o descobrimento trabalhavam com o barro, como por exemplo, a cerâmica Tapajônica. Os Goianas ou Guaianás, Puris e Jeromiris deixaram suas marcas. Na cidade de Aparecida existe um Museu, sob os cuidados da professora conceição Borges Ribeiro com diversas peças encontradas na região, bem como no acervo da divisão de Museus, Patrimônio e Arquivo Histórico da Prefeitura Municipal de Taubaté.

Há pouco tempo, fazendo escavações no Morro de São João, a menos de 500 metros da Rua Imaculada, exatamente no local onde se ergue a estatua do Cristo Redentor, os operários deram com um urna funerária com ossos humanos e a parte externa decorada; foi levada a estudos na Capital. Procurou-se vislumbrar a influencia indígena nos figureiros da Imaculada, mas não se encontrou qualquer indicio. Apenas Bartholomeu Nogueira, um dos figureiros, tem as características de um mameluco: cor acobreada, traços fisionômicos, barba rala.

O Professor Florençano viu fabricarem panelas pelo método indígena: o de “corda” – influencia indígena que não pode ser contestada. A cestaria (fabricação de cestas) é também herança dos primitivos habitantes do Brasil. Os primeiros figureiros faziam cestas para levarem seus produtos ao mercado.


INFLUÊNCIA BRANCA


Tratando da influencia portuguesa transcrevemos o que disse Cecília Meirelles para a Revista do Folclore, São Paulo, 4ª edição: “em nossa historia colonial, as vagas referencias que existem sobre escultura, levam-nos a crer, que os primeiros que a praticaram, ou era ajudantes dos missionários com quem trabalhavam na decoração das capelas ou escravos bem dotados, que à tardinha, saiam para negociar santos, frutos do seu trabalho. Não é possível afirmamos que estas esculturas fossem sempre religiosas. Parece-nos, entretanto, que foi por aí que se chegou à escultura profana. E o grande veículo da cerâmica popular no Brasil parece ter sido o presépio”, eram os chamados “Barristas”. Continua Cecília Meirelles referindo-se diretamente aos frades do Convento de Santa Clara de São Francisco das Chagas de Taubaté: “os franciscanos tiveram a incumbência de aldeiar os índios. Em 1730, existiam dezesseis religiosos que além de confessar os fieis e entre eles os índios, com estes, começaram a repetir a tradição portuguesa dos santos de barro”. São, portanto, os franciscanos os principais responsáveis pela disseminação dos figureiros. Uns dizem que as figuras eram de palha, outros de estopa.

Entretanto houve uma diferença entre as figuras primitivas da Ilha de São Miguel e as do Vale do Paraíba. Estas últimas, menos frágeis, porque os figureiros do Vale colocavam suportes de madeira nas pernas das figuras, criando assim um tipo de escultura popular característico. O mesmo aconteceu na Bahia, região de Cachoeira.


INFLUÊNCIA NEGRA


É bastante pequena a influencia negra na comunidade da Imaculada, porque os escravos negros só chegaram no Vale do Paraíba no final do século XVII com a mudança da Corte Portuguesa para o Brasil. Assim sendo as lavouras aumentaram no Vale e se fez necessária a mão-de-obra negra. A essa altura, costumes e usos já estavam arraigados e uma cultura nova como a negra, só aflorou superficialmente.

O que ficou de mais importante neste caso, foram as danças trazidas pelos escravos até hoje muito populares no Vale do Paraíba e também cultivadas na Rua Imaculada: Rodas de Jongo, Moçambique, congada, cujas figuras os figureiros representam, como também das “pretas velhas” com feixes de lenha na cabeça as socadoras de pilão(herança africana).

Não podemos esquecer como influencia africana também, o uso dos remédios e “passes mágicos”, como neles se referiu em sua música da Rua Imaculada, o compositor Renato Teixeira.


OS FIGUREIROS


Pudemos verificar que quatro gerações de figureiros tem sido levantadas nos estudos realizados. São diversas as famílias de figureiros que continuam esse artesanato descendentes ou não de algumas familias que no passado cultivavam esta herança genética deste trabalho.
• Família Monteiro de Oliveira Huesca
• Família de Anastácia e Idalina
• Família de Bartholomeu Nogueira
• Família das Irmãs Santos
• Família Sampaio
• Família de Conceição Frutuoso
Cabe-nos aqui destacar que muitos hoje que se denominam Figureiros não nasceram Figureiros, aprenderam de alguma forma e acabaram se apaixonando pela arte de esculpir o barro e hoje vivem de seu trabalho.


EVOLUÇÃO SÓCIO-ECONÔMICA


A evolução sócio-econômica da Rua Imaculada passa pelo progresso material e pela socialização dos moradores, sem que isso, entretanto, tenha modificado sua maneira de pensar, nem seu apego às formas tradicionais de trabalho:

a. De criadores à lavradores empregados junto a outros mais ricos, a pequenos sitiantes (Hoje todos os moradores da rua são proprietários do local de moradia, e isso de longa data);
b. De sitiantes à pequenos comerciantes (fazendo um longo percurso da casa do Mercado e do Mercado a localidades mais afastadas como Pindamonhangaba, Caçapava, etc);
c. Comerciantes estabelecidos em suas próprias residências (local de trabalho), não tendo de trabalhar para a temporada de vendas (Natal) mas vendendo sempre, trabalhando sob encomenda.
Retomamos o desenvolvimento sócio-econômico da Imaculada em ordem cronológica para melhor compreensão:

• Em 1940, tiveram luz nas casas (antes era luz de lampião de querosene, à vela, lamparinas que enfumaçavam tudo).
• Em 1947, luz na rua.
• Em 1952, alguns compradores começaram a subir o morro e comprar as figuras nas casas.
• Em 1954, já vendiam para a Capital de são Paulo: comprador, Rossini Tavares de Lima.
• Em 1960, Luiza compra um acordeon e leva as festas para a rua. Houve aí uma grande sociabilização e conseqüentemente a necessidade de um Inspetor de Quarteirão.
• Nos anos de 1966, 1967 e 1968, Feiras de Artesanato foram organizadas por ocasião da Semana Monteiro Lobato promovida pela Prefeitura Municipal de Taubaté. Foi o grande salto que tornou a “arte ingênua dos figureiros de Taubaté”, nacional e internacionalmente conhecida.
• Em 1972, conseguem rede de esgotos para a rua. Em 1984, a Associação dos Moradores consegue o calçamento da rua.
• Em 1985, a idéia da Associação Geral dos Figureiros, artesãos e Artistas Populares de Taubaté e a idéia da Casa do Artesão no Alto da Imaculada se concretizam (nessa ano apareceram ônibus de turistas na rua Imaculada).

Pode-se observar indícios de valorização das peças e do oficio pelos próprios figureiros, que vão no decorrer dos tempos melhorando os padrões de trabalho, porque a vida muda e com ela tudo o que se refere ao homem. O importante é que na rua Imaculada estas mudanças se bipartem: de um lado o progresso material (carro, TVs, aparelhagem de som, altas tecnologias em todos os setores do mercado de trabalho, melhores condições de vida, etc), do outro, a compreensão do valor de sua obra e de suas tradições.

É a partir desta geração que houve a preocupação em agrupar os figureiros em uma associação informal mantida pela Prefeitura de Taubaté.

No começo deste texto perguntou-se: ... “qual a importância que dão os figureiros da Imaculada à arte como válvula de escape, oportunidade para uma pessoa extravasar o que lhe vai por dentro?” diz Câmara Cascudo: “dinheiro não satisfaz a suficiência intima”, e é isso que leva a depositar nossas maiores esperanças de que a Imaculada continue a ser como diz Renato Teixeira “a tradição dos puros figureiros”.


O AMPARO DAS INSTITUIÇOES GOVERNAMENTAIS E NÃO GOVERNAMENTAIS


Até então as feiras e festas municipais e a assistência dada pelos órgãos estaduais, quer oficiais (SUTACO) como os não oficiais (Museu do Folclore) tinham sido de grande valia, mas o foco estava na comercalização das peças produzidas e não na difusão da história da Arte Figureira.

Há alguns anos atrás, a exposição montada pelo Museu do Folclore Edson Cordeiro, na Sala do artista Popular (FUNARTE – Rio de Janeiro), veio confirmar que os figureiros da Imaculada ganham outros espaços que não são apenas de seu estado natal. Verificamos que a Prefeitura de Taubaté teve numa certa época uma bem formulada política de apoio às tradições de sua cidade e a esse bem cultural de inestimável valor.

Vimos como desde o começo da história da Rua Imaculada suas lideranças se firmaram. Desde Conceição Frutuoso levando a imagem de Nossa senhora para lá. Mais tarde, todos os acontecimentos relativos às mudanças sócio-econômicas, sempre contaram com a participação efetiva dos membros da comunidade.

Por que não acreditar nisso? E mais dezenas de questões que pairam no ar sobre as questões de ensinar sem interferir demasiadamente em suas tradições, apenas dando o apoio necessário.


A FESTA DO FOLCLORE


Toda a organização de um evento popular tem na retaguarda a participação dos mais abnegados. A Festa do Folclores da Rua Imaculada existe nos dias de hoje porque essas duas senhoras conseguiram reunir os moradores da rua há cerca de 50 anos.

Em 2011, os festeiros são as mesmas duas irmãs, Maria Luiza Santos Vieira e Maria Cândida.

O tradicional evento folclórico era realizado no mês de junho, só mais tarde entrou para o calendário do Folclore e passou ser realizado em agosto “Foi em 1960, quando nós começamos…Foi no dia 29 de junho de 1960. Tinha o Gasparino, meu irmão, éra quem fazia essa festa, que tocava viola…Eu comprei um acordeão e aí foi que nós começamos a quadrilha. Em 1961, trouxemos violeiros e foi em 1974 que a festa passou para agosto.”, disse Maria Luiza.

Quanto as figuras, as irmãs dizem que a exportação para outros países anda um pouco devagar, mas a busca na própria Rua da Imaculada ainda é grande. Segundo Maria Luiza e Maria Cândida, o apoio da Prefeitura para organização da Festa da Imaculada ainda é pequeno.

Segundo ela:
“Pra nós não! A Prefeitura dá apoio para a Casa do Figureiro…
Nós toda a vida fizemos tudo sozinhas!”

Regua